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PORTO 2000

8 min, DCP, short animated film by Matilde Camacho

SInopse

Uma viagem sensorial por uma cidade fictícia, criada à imagem de memórias pessoais, próprias de quem viveu o início do novo milénio no Porto durante a infância. A sequência narrativa, construída através da recolha e manipulação de imagens e vídeos da cidade no passado, representa um Porto que já não existe. Ou que talvez nunca tenha existido.

Synopsis

A sensory journey through Porto2000: a fictional city, created in the image of personal memories of those who lived through this era and Porto during their childhood. The narrative sequence, constructed through the collection and manipulation of images and videos of the city in the past, represents a Porto that no longer exists. Or maybe it never existed.

Ep

1.

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VISUAL REFERENCES
Declaração de intenções

Não sei se sou capaz de justificar a minha fixação por datas. Por perceber o estado das coisas mais banais em diferentes pontos do tempo. O que é facto é que esta fixação cresce exponencialmente ao encontrar imagens da minha cidade num passado em que eu já existia e que presenciei. Fazem-me perceber que há memórias da minha infância que quase se apagaram totalmente, e abrem portas para um mistério insaciável. Outras vezes, confirmam aquilo que eu já não sabia se tinha visto ou sonhado.

Os grafismos da época, o som da gaita de um amolador de tesouras, os toldos dos cafés e até os modelos dos autocarros são gatilhos para uma procura que me parece essencial ao sentido da minha existência. Talvez por pertencerem a uma altura em que ainda não compreendia o mundo. Ou antes, compreendia à minha maneira. Gostava de montar a cidade com os meus olhos da altura e de viver nela. Parece-me mais realista fazê-lo num filme.

Dizem que tenho boa memória, e é verdade que me lembro de muitos detalhes das coisas que vivi. O que é curioso, mas provavelmente natural, é que nem todas as memórias se prendem a eventos importantes. Há tanta coisa que me marcou sem razão aparente. Cada vez mais me convenço que as memórias de infância sensoriais, cheias de pormenores, cheiros, texturas, cores e sons, ocupam um espaço tão legítimo e importante como as outras. Pela sua natureza oculta, guardam em si partículas da minha essência.

Com o passar do tempo, fui-me apercebendo que é raro mencionar estas memórias secundárias. Aquelas que não se prendem pelo fio condutor da causa-consequência.

Na mesma linha de reflexão sobre as memórias, não consigo deixar de olhar para o facto de tomarmos por garantida a existência daquilo a que estamos diariamente expostos. É claro que há pormenores do nosso quotidiano que tendemos a ignorar ou a desvalorizar. 

No entanto, em várias ocasiões concluí que a mudança repentina pode atribuir valor àquilo que era outrora uma banalidade. Quando regressei ao Porto após a licenciatura que frequentei longe dali, estranhei as mais ínfimas mudanças. Desde cartazes de publicidade com anos que haviam sido retirados ou substituídos a árvores abatidas e edifícios deitados abaixo.

Olhei para as coisas como se fosse a primeira vez que as via. E tornei-me ainda mais sensível à sua presença.

Directors’ Notes of Intent

Não sei se sou capaz de justificar a minha fixação por datas. Por perceber o estado das coisas mais banais em diferentes pontos do tempo. O que é facto é que esta fixação cresce exponencialmente ao encontrar imagens da minha cidade num passado em que eu já existia e que presenciei. Fazem-me perceber que há memórias da minha infância que quase se apagaram totalmente, e abrem portas para um mistério insaciável. Outras vezes, confirmam aquilo que eu já não sabia se tinha visto ou sonhado.

Os grafismos da época, o som da gaita de um amolador de tesouras, os toldos dos cafés e até os modelos dos autocarros são gatilhos para uma procura que me parece essencial ao sentido da minha existência. Talvez por pertencerem a uma altura em que ainda não compreendia o mundo. Ou antes, compreendia à minha maneira. Gostava de montar a cidade com os meus olhos da altura e de viver nela. Parece-me mais realista fazê-lo num filme.

Dizem que tenho boa memória, e é verdade que me lembro de muitos detalhes das coisas que vivi. O que é curioso, mas provavelmente natural, é que nem todas as memórias se prendem a eventos importantes. Há tanta coisa que me marcou sem razão aparente. Cada vez mais me convenço que as memórias de infância sensoriais, cheias de pormenores, cheiros, texturas, cores e sons, ocupam um espaço tão legítimo e importante como as outras. Pela sua natureza oculta, guardam em si partículas da minha essência.

Com o passar do tempo, fui-me apercebendo que é raro mencionar estas memórias secundárias. Aquelas que não se prendem pelo fio condutor da causa-consequência.

Na mesma linha de reflexão sobre as memórias, não consigo deixar de olhar para o facto de tomarmos por garantida a existência daquilo a que estamos diariamente expostos. É claro que há pormenores do nosso quotidiano que tendemos a ignorar ou a desvalorizar. 

No entanto, em várias ocasiões concluí que a mudança repentina pode atribuir valor àquilo que era outrora uma banalidade. Quando regressei ao Porto após a licenciatura que frequentei longe dali, estranhei as mais ínfimas mudanças. Desde cartazes de publicidade com anos que haviam sido retirados ou substituídos a árvores abatidas e edifícios deitados abaixo.

Olhei para as coisas como se fosse a primeira vez que as via. E tornei-me ainda mais sensível à sua presença.

Memorando descritivo de técnicas

A exploração dos temas que estão intrinsecamente ligados a este projecto – nomeadamente a percepção infantil sobre o mundo – será feita de uma forma também ela quase exclusivamente sensível, e não a partir de uma compreensão mais factual, real e estudada das coisas. Não existe um interesse por procurar as histórias vividas em determinados locais da cidade e arranjar um modo de representá-las, existe antes uma vontade de tentar extrair história sem que ela seja contada, abrindo assim portas à possibilidade de criar um mundo fictício, baseado na minha própria impressão do Porto.

Techniques Memo

Being a very sensitive subject and dealing with acts of great visual violence, it is with particular care that the different animation techniques and graphic treatment are chosen that will be used to suit the desired emotional environment, respecting the dignity and “truth” of the testimonies that serve as a basis.

Each episode will use a different animation technique or style, transforming the episodes into independent pieces, from a creative point of view, despite the umbilical cord that unites them.

TECHNIQUES TO USE

1. THE SLOW DEATH – digital painting that simulates manual painting, using a technique close to watercolor with a reduced color scheme to black/yellow/orange using the game of contrasts and shadows typical of an arid and hot climate.

2. ASSISTANCE TO THE DEFENDANT – stop-motion using paper as raw material for the construction of the scenarios and characters. Paper is at the same time a versatile and fragile material, liable to be cut, burned, destroyed, to be composed again with certain ease, like paper pulp. Visually, the paper refers to the PIDE archive and the entire wealth of information collected by the secret police: records, search warrants, declarations, seized letters, records of telephone tapping and informants.

3. IF YOU ARE ARRESTED, COMRADE… – the technique to be used will alternate between pixilation, which takes place in the cell, where the prisoner is being tortured, and stop-motion, in the kitchen, essentially resorting to animation with food and kitchen utensils.

4. ALL THE TIME IN THE WORLD – digital drawing over photography. Photography will essentially be used in the setting, reproducing the space of the cell and the interrogation room.

The two-dimensional drawing will represent the main character and the black stain, the PIDE agents. The color, essentially in shades of red, will be used to invoke feelings of anger and the most violent attitudes.

5. HALF DOZEN SWINGS IN TIME – digital drawing simulating the free and uncompromising line of the charcoal line that will be composed with stain whenever we feel the need to emphasize a part of the body, such as, for example, the feet swollen by the torture of the statue or the brands of electric batons.

6. THIS MAN DOESN’T SLEEP – will essentially be a work of pixilation and stop motion since these techniques allow playing with scales and distorting the human body in ways that seem impossible using a real image. Occasionally it will be necessary to resort to 2D animation to highlight some psychic aspect of torture.

Budget: 814.020,00 €
Secured financing: 70.000,00 € ( financial support by ICA for development)

Production