SINOPSE

Natália, refém de um trabalho entediante e repetitivo, envolve-se numa aventura em busca de um coração roubado. Num mundo surreal onde os corações podem ser depositados num banco, a protagonista atravessa vários perigos que a conduzem a um dilema: dar o seu coração ou guardá-lo para si.

REALIZAÇÃO / ANO

Alice Guimarães, Mónica Santos, ANI, P&B, 13′ 25”, 2018

PRODUÇÃO

DISTRIBUIÇÃO

O filme ENTRE SOMBRAS alicerça-se em dois grandes temas: o surrealismo e o film noir. Como no film noir, a trama desenrola-se nos anos quarenta, embora não seja refém desse horizonte temporal, visto que se inspira numa lógica surreal.

 

Este surrealismo manifesta-se sobretudo na cenografia, figurinos e animação: cofres-fortes onde são depositados corações resguardados em malas; quartos de hotel cujas camas engolem os protagonistas ou adereços que se mexem sozinhos; homens sem cabeça, cabeças presas em gaiolas ou cintos que tomam a iniciativa de abraçar um corpo.

 

A animação, através das técnica da pixilação e do stop-motion, permite transmitir conceitos mais abstratos, utilizar metáforas e construir uma narrativa cinematográfica mais plástica, mas ao mesmo tempo compreensível.  A imagem real, através da pixilação, enaltece o cariz humano do filme tanto pela emoção facial como pela linguagem corporal dos actores.

O lado onírico da animação, através do stop-motion permite-nos jogar com escalas, transições e desafiar o que é considerado convencional, ajudando ao caráter surreal da narrativa.

 

Ao film noir ficam a dever-se as opções estéticas como o recurso ao preto e branco, à iluminação, ao jogo de contrastes e de sombras, para revelar aspectos psicológicos e sublinhar tensões, embora sempre pontuados por impressões surrealistas.

 

O arquétipo femme fatale é apropriado e para, subverter este estereótipo feminino, é convertido em homme fatale. Assume-se também o ponto de vista da figura feminina que se constitui como narradora da história, num registo de voz off, quebrando assim com o predomínio do discurso masculino neste género cinematográfico.  

 

A sexualidade, tema subjacente do film noir, está também presente neste filme, no desejo que o homme fatale projecta na protagonista e no jogo de poder que decorre da  relação homem/mulher, sedutor/seduzida.

 

No estilo visual próprio do film noir, a protagonista move-se maioritariamente em ambientes masculinos, urbanos e intimidantes. São lugares citadinos envoltos em mistério, reforçados pelo ambiente nocturno e pelos jogos de sombras. A atmosfera é desconfortável e das ruas espreitam perigos. A luz, maioritariamente em chiaroscuro, reflecte todo este ambiente de suspense e inquietação.

Os locais de filmagem oferecem uma estética Art Déco, cuja conjugação de padrões geométricos e o uso de preto e branco se coaduna com a estética do film noir.

 

A banda sonora de “Entre Sombras”, acompanha o percurso da protagonista, pautando a sua transformação. Começa por sublinhar a sua insatisfação e o desejo de que algo de extraordinário aconteça. A música sincroniza-se com a personagem e com as suas acções, pontuando mecanicamente o seu emprego, rotina esta que é interrompida pela chegada de um bilhete deixado por um estranho. Nesse momento inicia-se o tema que conduzirá o espectador do clichê de film noir até a um final triunfante de liberação feminina.

Em suma, “Entre Sombras” pode ser entendido como um filme Neo-noir que adopta a estética do preto e branco e imagética dos anos 40, inspirando-se no design Art Déco e no movimento surrealista de forma a criar uma narrativa com cariz feminista que utiliza estereótipos do cinema para os desconstruir de forma original e desafiante.

Argumento, Realização e Animação Alice Guimarães e Mónica Santos; Atores / Cast Natália Flores | Sara Costa; Ladrão de Corações | Gilberto Oliveira; Narração Margarida Vila-Nova, Lindsey Richardson; Direção de Fotografia Manuel Pinto Barros; Direção de Arte Mónica Santos; Composição Musical Pedro Marques; Direção de Animação e Edição Alice Guimarães; Décors Nuno Brandão; Adereços Milton Pacheco; Design gráfico Joana Araújo; Caracterização Francisca Sobral; Assistente Regina Machado; Figurinos Regina Machado; Costureira Francisca Santos; Figuração Homens-Sombra | Emílio Gomes, João Pamplona, Homem-Troca | Rui Alexandre Osório, Mulher-Jornal | Teresa Freitas, Mulher-Escadas | Mónica Santos, Recepcionista #1 | Teresa Freitas, Recepcionista #2 | Marlene Félix, Homem-Lenço | João Pamplona, Viúva | Clara Nogueira, Homem-Gaiola | Milton Pacheco, Mulher-Chapéu/Mulher Cantora | Daniela Duarte, Mulher-Turbante | Francisca Sobral, Manequim, Mulher-Traça | Regina Machado, Homem-Abajur | Nuno Amorim, Mulher-Boca | Ana Pinto, Mulher-Camisa | Mónica Santos, Cantora | Daniela Duarte, Empregado | Gilberto Oliveira, Homem-Óculos Escuros | Davide Freitas, Homem-Mão, Mulher-Vazia | Joana Moraes, Homem-Manipulador | Simão Luís , Homem-Colete de Forças | Milton Pacheco, Mulher-Colete de Forças | Vanessa Ventura, Sombras Arquivo | Vítor Carvalho, Pedro Medeiros, Fabrice Dugast, Mónica Santos, Vanessa Ventura, Milton Pacheco, Regina Machado; Produção Animais, AVPL; Produtor Vanessa Ventura, Nuno Amorim; Produtor Executivo Davide Freitas; Co-Produção Portugal Um Segundo Filmes; Produtor Pedro Medeiros; Produtor Delegado Humberto Rocha, Victor Carvalho; Co-Produção França Vivement Lundi !; Produtor Executivo Fabrice Dugast; Produtor Jean-François Le Corre, Mathieu Courtois

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